Miriam Augusto: de Química a Viajante Profissional

Miriam Augusto: de Química a Viajante Profissional

Sonhava viajar. Via programas, desfolhava revistas, deslumbrava-me com as imagens e dizia para mim "Um dia hei-de ir ali". Muitas vezes apontava os nomes em papéis, para mais tarde me recordar. Ainda tenho um que diz Cartagena, resultado de umas imagens que vi num programa de televisão.

Muitos dizem que é um trabalho de sonho. Não digo que não seja, mas a verdade é que não estou a viver um sonho. Porquê? Porque a nível profissional, nunca o sonhei. Estudei para trabalhar em investigação. Tirava a Licenciatura em Química, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto quando, no terceiro ano de curso, descobri uma ciência chamada Toxicologia. O plano estava traçado. Iria tirar mestrado e depois doutoramento naquela área. Segui para o Mestrado em Medicina Legal, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto e por aí fiquei. Já estava eu em outras viagens quando me ligaram a dizer que tinha entrado no Doutoramento de Neurobiologia da Universidade de Trento em Itália. Recusei!

A primeira aventura aconteceu muitos anos antes, tinha eu cerca de 8 anos. O destino? A Suíça. Fui com a minha mãe numa viagem de autocarro, que durou dois dias, visitar o meu pai que na altura lá trabalhava. Ficámos um mês. Dessa viagem, trago os piercings, os cabelos coloridos e tatuagens que nunca tinha visto e a pizza que até então nunca tinha provado. As paisagens verdejantes e a simpatia dos Suíços com quem metia conversa (inclusivamente entrava nas suas casas à descarada!) mesmo sem saber falar alemão. Uma vez, passei o dia inteiro com o coveiro da igreja ao lado de minha casa. Foi a primeira vez que vi um morto!

Seguiu-se o Brasil, Marrocos, vários países Europeus e Asiáticos. Aproveitava os amigos em erasmus e as companhias low cost. Era abusada mesmo! Às vezes podia até nem ter grande confiança, mas se na minha rede de amigos do Facebook alguém oferecia casa num qualquer país Europeu, eu não me fazia rogada e pouco tempo depois lá me metia no avião.

A viagem ao Brasil e o estar nos cenários que via nas telenovelas, mostrou-me que tudo era possível neste mundo de aventuras, foi então que, prestes a finalizar o mestrado e após um pé de meia junto à custa de um trabalho na Fábrica – Centro de Ciência Viva de Aveiro, decidi realizar uma viagem que era um sonho de criança. Queria ir à Índia ver o Taj Mahal. Comecei a planear tudo em folhas de Excel. Por onde ia passar, quanto tempo ia ficar, como me ia deslocar, onde ia dormir…um plano de 3 meses que foi posto em prática em Agosto de 2011 com mais 3 amigos. Nesta viagem, tal como nas outras, quem me acompanhava com pouco ou nada tinha de se preocupar. Eu tratava sempre de tudo. Tudo organizado de forma a rentabilizar o tempo passado no destino e a poupar o mais possível.

Conhecendo a minha paixão pelas viagens, e vendo toda a organização levada a cabo antes de me fazer à estrada, surgiu a sugestão de começar a levar pessoas comigo. A principio a ideia não me agradou. Teria de voltar ao mesmo sítio várias vezes (com tanto mundo para desbravar) e teria de lidar com pessoas, logo eu…o “rato de laboratório”. Contudo, acabei por arriscar na ideia. Se foi um negócio pensado, estruturado? Não foi, não fiz estudos de mercado, não sabia sequer o que era isso do público alvo e modelos de negócio. Se fosse hoje, teria feito tudo de forma diferente, mas olhando para trás, sinto que cresci e tenho vindo a amadurecer nesta área.

O primeiro país foi o Vietname. Um amigo ia para lá de férias e convidou-me a ir com ele. A ideia de ir ao Vietname soou-me super aliciante, só pelo facto de nunca me ter passado pela cabeça lá ir. O factor surpresa e dar algo que faria as pessoas pensarem “nunca pensei isso, mas parece-me bem” era algo que queria presente. Aceitei e fui com ele. Durante três semanas percorremos o país de norte a sul, seguindo o plano que tinha traçado antes da nossa partida.

Conheci, estabeleci contactos, voltei para Portugal e desenhei um roteiro. Orçamentei, escrevi o itinerário e propus a uma agência convencional vender o meu produto para perceber até que ponto haveriam pessoas interessadas. A primeira viagem saiu em Abril de 2014, tendo sido um sucesso. No mesmo ano, nasceu a The Wanderlust, uma agência que organiza aventuras para pequenos
grupos de viajantes, cujo envolvimento com os destinos de viagem, proteção e respeito pelas comunidades, cultura, tradições e ambiente é prioridade.

Hoje, quase quatro anos depois, já temos mais destinos do que o Vietname. Numa equipa constituída por 10 líderes de viagem, são dezasseis as aventuras propostas. Quanto a mim, continuo a viajar. Atualmente passo o meu tempo dividido entre Portugal e o Mundo. Viajo sozinha, com os grupos da The Wanderlust e muito raramente com amigos, mas sempre de mochila às costas.

Por Miriam Augusto