Açores mágicos

Açores mágicos

Das nove ilhas que constituem o arquipélago dos Açores, já tive oportunidade de visitar quatro. Terceira, Pico, Faial e S. Miguel, com repetição da primeira.

Já tive oportunidade de visitar locais que me marcaram bastante, dentro e fora do país, e, embora me seja difícil fazer comparações, garanto que os Açores são o destino que me surge de imediato, quando penso numa escapadela. Já vi bastante, mas seguramente ainda me falta muito para ver. A prova disso foi a nova visita à Terceira, no ano passado. Sonhei durante quatro anos com a possibilidade de voltar a percorrer, com a minha mulher, as ruas de Angra do Heroísmo, património da humanidade, e descer novamente o Algar do Carvão, uma cavidade vulcânica belíssima que demonstra bem o poder da natureza e a origem deste arquipélago. Garanto que senti o mesmo espanto na primeira visita.

Mas houve novidades, porque as haverá sempre. Exemplos disso foram um final de tarde tranquilo no topo do Monte Brasil a contemplar a Baía de Angra, a vista para S. Jorge e a Graciosa ao fundo, uma visita à Praia da Vitória e respectiva marina, com passagem pelas piscinas naturais dos biscoitos e a Gruta do Natal, que superou largamente as expectativas. E o que dizer da redescoberta da gastronomia local? Aquele ar puro estimula o apetite, mas garanto que se fica saciado com a variedade e qualidade dos pratos, mesmo para quem não seja um grande apreciador de Alcatra, como eu.

Foi, realmente, uma viagem memorável. Tantas experiências disponíveis numa área não tão grande assim.

E quando me perguntam se vale a pena visitar os Açores, respondo sempre: “Claro que sim, até mais do que uma vez!”.

Gostaria de conhecer todas as ilhas, sem dúvida, mas redescobrir as já visitadas também faz parte dos meus planos. De S. Miguel recordo com saudade belíssimas paisagens, como a vista sobre a Lagoa das Sete Cidades e tantas outras, o Nordeste, as águas férreas do Parque Terra Nostra e as plantações de ananás e chá. As Furnas são uma paragem obrigatória e não deixam ninguém indiferente. Lembro-me com frequência do tradicional cozido, daquela que foi uma das minhas melhores experiências gastronómicas, cozinhada ali, ao vapor, debaixo daquele chão. Que memórias traria agora, se pudesse visitar a Ilha Verde novamente?

Poucas obras feitas pelo homem me impressionaram tanto como os muros de protecção da vinha, na ilha do Pico. A sua extensão atinge as dezenas de milhares de quilómetros, mas foi o trabalho da natureza ali que mais me marcou. As rochas negras, aquela paisagem singular entre o Faial e S. Jorge, a montanha imponente que espero subir um dia e os dragoeiros centenários, são apenas alguns motivos para lá voltar.

Visitaria de novo o Faial, sem hesitar. A enorme caldeira vulcânica revelou-se muito tímida no nosso primeiro encontro, escondida atrás do nevoeiro, mas, ainda assim, acabou por revelar todo o seu esplendor por breves instantes. A passagem pelos Capelinhos é indispensável. Um local fantástico, com uma paisagem simultaneamente desoladora e bela. Diferente de tudo, Açores no seu melhor.

Recordo-me ainda do café Peter’s e o seu pequeno museu dedicado ao “Scrimshaw”. Arrisco-me a afirmar que haverá poucos estabelecimentos por esse mundo fora tão míticos quanto aquele.

Os Açores são o meu destino de eleição, mas não me perguntem de que ilha gosto mais. Terei de as visitar a todas para ser justo. Mas se tiver essa oportunidade, acredito que, nessa altura, darei a mesma resposta que dou hoje. Todas as ilhas são diferentes, complementam-se e isso consegue torná-las ainda mais especiais.

Quando avistada, Angra do Heroísmo surge como um rendilhado de ruas, ruelas, igrejas, palácios, casas senhoriais, monumentos, praças e jardins. Uma verdadeira cidade-monumento de traçado renascentista, cujo centro histórico foi classificado como Património Mundial da Unesco, em 1983.

Além de entreposto comercial interno, Angra do Heroísmo teve um papel central nas rotas dos Descobrimentos marítimos. Esculturas, talha dourada, azulejaria e mobiliário de madeiras exóticas que recheiam solares, igrejas e monumentos são alguns dos testemunhos da importância secular da cidade.

Ao perder-se pelas ruas de Angra do Heroísmo, encontrará fachadas de pedra de cantaria e pinturas de cores garridas, varandas de ferro forjado e janelas adornadas. Depois, há paragens obrigatórias. Pode começar por observar um exemplo único de arquitetura militar dos Açores: a imponente fortificação de São João Baptista, que foi construída há cerca de 400 anos. Mas há muito mais. Não deixe de visitar, por exemplo, a Sé Catedral do Santíssimo Salvador, a Igreja da Misericórdia, a Igreja do Espírito Santo, o Palácio dos Capitães-Generais, os Paços do Concelho, a Igreja de São Gonçalo, o Palácio Bettencourt, ou o Convento dos Franciscanos e Jesuítas.

E porque falar de Açores é falar de Natureza, sendo a Terceira a ilha com a maior mancha de floresta nativa do Arquipélago, Angra do Heroísmo está rodeada de um verde único, com piscinas naturais, pontas, promontórios, grutas e baías de rara beleza. Uma ilha a não perder.

Se, nos Açores, a Natureza nos esmaga com paisagens encantadoras, a gastronomia também não nos deixa indiferentes. Em qualquer uma das nove ilhas que compõem o Arquipélago encontram-se produtos de uma qualidade única. Os peixes e os mariscos frescos do mar, as carnes tenras e suculentas, os legumes e as frutas regionais, o vinho com características singulares ou os doces típicos fazem as delícias de qualquer visitante. Nos Açores, a gastronomia é uma viagem de sentidos.

E o que dizer do queijo? Ou melhor, dos queijos. É que nos Açores são muitas as variedades e todas elas de fazer crescer água na boca. De São Jorge, das Flores, do Pico ou do Corvo. Todos eles obrigatórios.

Passando ao prato principal, peixe ou carne? Os dois, sem dúvida. Mas, antes, uma sopa: caldo de nabos, caldo de peixe, sopa de agrião ou sopa do Espírito Santo são boas opções. O peixe, acabado de pescar, come-se grelhado ou em caldeirada. Sempre fresco, tal como o marisco, que se apresenta como uma excelente opção: lapas, cracas (crustáceo que se descobriu nos Açores), cavacos ou amêijoas. Quanto à carne, tenra e saborosa, imperdível o cozido das furnas ou a alcatra, sem esquecer os enchidos, como a morcela e a linguiça.

A acompanhar, um bom vinho. Branco ou tinto. E que tal o do Pico, que é extraído de produções situadas na Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, considerada Património Mundial da Humanidade pela UNESCO?

Terminada a refeição, lugar ainda a uma sobremesa. E aqui o difícil é escolher. Se a fruta atinge o seu expoente máximo com o ananás de São Miguel, a doçaria também não fica atrás. O leque é vasto e variado: queijadas da Graciosa, encharcados de ovos, pastéis de arroz, bolos de véspera, alfenim, coscorões. As experiências gustativas são, sem dúvida, mais um bom motivo para conhecer os Açores.

É em São Miguel que moram as grandes lagoas dos Açores, alojadas em caldeiras vulcânicas com quilómetros de dimensão. A mais emblemática é a Lagoa das Sete Cidades, local de lendas e mitos que bem merece o miradouro designado de “Vista do Rei”, em que o vislumbre das lagoas Verde e Azul, geminadas por uma ponte de arcos, assume nobreza contemplativa. Considerada uma das Sete Maravilhas Naturais de Portugal, trata-se de uma paisagem de difícil descrição, tamanha a sua beleza. São mais de 4 quilómetros com diferenças na tonalidade da água, o que muito se deve ao facto de a Lagoa ser dividida por um canal pouco profundo, fazendo com que de um lado o tom da água se assemelhe a verde e do outro a azul. Reza a lenda que vivia uma bela Princesa no Reino das Sete Cidades que, atraída pelo som da flauta, encontrou um pastor por quem se apaixonou. O rei não terá permitido tal namoro. Os jovens, desgostosos, ter-se-ão despedido em lágrimas. Tantas que criaram duas lagoas: uma verde, da cor dos olhos da Princesa, e uma azul, da cor dos olhos do pastor. Lenda ou história, certo é que este é um dos locais a não perder numa viagem aos Açores.

O encanto de São Miguel prossegue na Lagoa do Fogo, que demonstra um carácter mais selvagem. Uma imensidão de água aparentemente parada, acumulada da água das chuvas, vai mudando de cor aos olhos de qualquer pessoa, conforme o vento, conforme as nuvens, conforme a luz do sol que embate de ângulos diferentes em cada gota de água. Azul, verde ou cor de chumbo, do azul anil ao azul-turquesa, delimitada por areais brancos e uma imensa vegetação que não esconde as origens vulcânicas. No vulcão das Furnas, a lagoa ocupa posição privilegiada e sobressai pela sua extensão, envolvida de vegetação luxuriante e extravagante, que faz jus à alcunha de “Vale Formoso”. Mas o cortejo de lagoas prossegue, quer na zona da Serra Devassa quer na parte central da ilha: Santiago, Rasa, Canário, Éguas, Empadadas, Congro, São Brás… Com a certeza de que haverá sempre mais uma lagoa para descobrir.

Os Açores são o único local da Europa onde se produz chá. Há quem sustente que as primeiras sementes da planta Camelia sinensis, que está na origem do chá verde e do chá preto, chegaram ao Arquipélago em 1750, transportadas pelas naus que retornavam do Oriente. Mas foi no século XIX que se constatou que o clima ameno, com ausência de geadas e insolação pouco intensa, era o ideal para a plantação de chá. Também nessa altura, chegaram aos Açores especialistas que foram ensinar as várias fases da produção desta planta.

Hoje, o Arquipélago é uma referência, quando se fala de chá. Em São Miguel, existem duas fábricas: a Gorreana e a Porto Formoso. Ambas de visita obrigatória. Aqui, não só poderá conhecer as plantações como descobrir todo o processo e história que estão por detrás desta bebida secular. E, antes de chegar ao fim, não deixe de degustar alguns dos tipos de chá que têm para lhe oferecer e que pode também adquirir nas próprias fábricas.

A ilha do Pico é o ponto mais alto de Portugal e os motivos de interesse para a visitar não faltam. A paisagem da cultura da vinha é Património Mundial da Humanidade, classificação atribuída pela UNESCO, em 2004. Já a paisagem vulcânica, essa foi considerada uma das Sete Maravilhas Naturais de Portugal. Mas há mais. Muito mais.

A Vila da Madalena é um dos maiores aglomerados populacionais da ilha e foi, durante séculos, o porto de ligação com a cidade da Horta, no Faial, ilha por onde se escoavam os vinhos, queijos, e frutos locais. Com visível valor Patrimonial, o concelho e vila da Madalena tem preservados vários elementos urbanísticos, como solares e casas senhoriais que comprovam o poder económico de outros tempos proveniente principalmente do comércio e exportação do vinho.

Quanto às Lajes, outro ponto de paragem obrigatória, deve o seu nome à fajã lávica onde assenta, que forma uma espécie de plataforma costeira rasa que se assemelha a uma laje. É aqui que se encontra o Museu dos Baleeiros, único do género nos Açores e em todo o território nacional. Instalado nas antigas casas de botes baleeiros, foi inaugurado em 1988 e retrata a atividade baleeira, que prosperou na ilha entre o século XIX e os anos 80 do século XX. Hoje em dia, a observação de cetáceos é uma das actividades mais concorridas, pela imponência que estes animais manifestam nos mares atlânticos.

Mas a visita ao Pico não pode terminar sem a subida à Montanha. Um desafio irrecusável, não fosse a vista lá de cima incomparável a tudo o que já se viu.

Por David Carvalho